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A ‘Síndrome do eterno viajante’


Você não está cômodo aí porque quer estar em outro(s) lugar(es). Necessita urgentemente viajartem o vírus viajante, é algo que simplesmente está no seu DNA é definitivamente um louco por viagem? Este post é pra você.
Mais abaixo, um curta cujo texto foi feito de apaixonado por viagem, para apaixonado por viagem.
Criação dos espanhóis Lucía Sánchez e Rubén Señor.
Talvez você até já tenha se deparado com esse vídeo por aí. Nós há muito gostaríamos de publicá-lo por aqui. Hoje resolvemos fazer uma tradução livre dele pois é algo tão simples e belo que não se pode ficar sem compartilhar.

“Deixar tudo pra trás, para ter tudo adiante” | Foto: Reprodução Facebook.

“Se você me diz: ‘Vamos’? Deixo tudo” | Foto: Reprodução Facebook.

O vídeo

Impossível não se identificar. Abaixo nossa tradução livre:

“Hoje não é um dia qualquer. Irei de novo. Levo muitos meses esperando fazer outra de minhas viagens longas, todos os cheiros, cores e sabores que tinha tão frescos em minha cabeça, começavam a ser recordações difusas, que se fundiam uns com os outros formando uma chuva de lugares para os quais quero voltar uma e outra vez.
Necessito voltar a perder a noção do tempo. Não saber em que mês estou é incrível, mas passa.
Necessito que os domingos não sejam tristes, nem as quartas o dia do espectador.
Quero que a única coisa que importe seja pensar no que fazer em cada momento. Onde dormir a cada dia, quanto posso economizar comendo, como chegar a cidade seguinte, o que me espera ao descer do próximo ônibus, do barco seguinte, do trem seguinte.
Não gosto de voar, mas é o preço que tenho que pagar para que a partir de hoje cada dia não seja um dia qualquer.
O melhor de estar longe de tudo que conheço é saber que a cada passo que eu dê, me espera algo totalmente novo.
Não ter um caminho condicionado, aquele que eu já tenha na memória cada semáforo, cada loja, cada esquina. Quero estar alerta a tudo que me rodeia, para não perder nada.
É então quando tenho a sensação de estar em um momento único e que nada mais importa.
Reconheço que estou atraída a esta forma de vida. Estou aqui, neste lugar alheio ao meu mundo e pode ser que não volte aqui nunca mais. Tenho que saborear cada momento. Guardá-lo dentro do meu ‘hd’ para dentro de alguns anos recuperar alguns segundos de tudo isso. Algum segundo que tenha sobrevivido ao passar do tempo e que me traga aqui por algum instante.
Não me lembro do que passou há 3 semanas em um dia qualquer do escritório, mas quero lembrar que estive aqui.
Sempre acontece igual. Custa adaptar-me às mudanças. É uma pequena descompressão, ou melhor dizendo, uma pequena compreensão de costumes alheios que me pegam desprevenida em princípio, os mesmos que em pouco tempo me acostumo e faço meus.
Nunca deixará de surpreender-me a capacidade de adaptação que tem o ser humano.
Reconheço que não gosto de encontrar-me com ‘espanhóis pelo mundo’. Quando isso acontece, procuro passar despercebida. Em parte me sinto mal por fazê-lo, mas na realidade é que não posso com exaltações nacionalistas a quilômetros de distância, além disso trata-se de uma situação que faz com que tudo seja menos autêntico, menos especial e , sejamos sinceros, quando alguém está a quilômetros de casa, mochila nas costas buscando experiências novas, querendo viver uma aventura, não quer falar de jamón e tortilla de batatas com desconhecidos. Ao menos, não em seu próprio idioma.
Não sei, parece que por sermos espanhóis estamos obrigados a ter uma conversa que nos levará irremediavelmente ao mesmo local de onde viemos. É algo que nunca entendi. Se nos encontrássemos no metrô de Madri, não conversaríamos sobre nada, por que aqui sim?
Que curiosa é a curiosidade. Sinto que as pessoas me olham e me olham porque eu paro para ver coisas que a elas não chama a atenção – para eles, tudo isso é normal; é seu dia-a-dia. Para mim não. Para mim um cachorro dentro de uma gaiola com uma cumbuca de arroz não é normal. Isso merece dois ou três minutos do meu tempo e uma e outra foto. Por isso, paro para ver qualquer coisa que aqui seja normal e me sinto observada, o que acabo achando engraçado. Seguramente, em alguma vez estando em Madri parei para observar alguém porque estava fazendo foto de um lugar que vendia Churros.
Que curiosa é a curiosidade, sobretudo quando não pretende ser.
‘Quando em Roma, faça como os romanos’ –  provavelmente uma das frases feitas que mais me gera amor e ódio. Ódio porque soa péssimo; e porque quase todo mundo enche a boca a pronunciar-la como se realmente se deixaram levar por ela. Trata-se de uma espécie de violação dramática socialmente aceita e gosto porque é uma verdade que em si mesma é provavelmente o melhor conselho na hora de viajar.
Um conselho que nem sempre sai bem, que às vezes não é muito cômodo, mas que normalmente faz com que você se integre muito mais e que entenda o porquê das coisas. Sopa pela manhã aos 40 graus ao invés de uma torrada? Por algum motivo será.
A noite…
A noite me prende esteja onde estiver. Por um lado é muito parecida em todas as partes e de alguma maneira serve de laço para unir um lugar ao outro. Por outro, é como uma máquina do tempo, ou melhor dizendo, uma máquina do espaço. Um pouco perigosa, é certo. Me leva e me traz sem avisar, fazendo-me sonhar com outros lugares nos quais também quero estar. Liberdade e condenação sob a luz de neon.
Quando viajo tento não repetir destinos. Me falta muito para ver e me faltará tempo para ir a todos os lugares que quero. Bem, e dinheiro, claro. Por outro lado, há lugares que me chegaram tão profundo que sempre os tenho presentes. Essa sensação depende muito do que aconteceu da primeira vez em que estive ali, como foram as pessoas comigo ou as experiências que tive. Gosto de pensar que sempre poderei voltar e que tudo seguirá igual o que foi. Mas isso não acontece. Cada viagem é diferente. Muda você, mudam as pessoas, mudam as experiências.
Os lugares que vou armazenando em minha cabeça são projeções dessas experiências; todos são boas lembranças ainda que no momento vivido nem foram tanto.
Ainda que eu esteja um pouco mais ligada a Madri, porque ali está minha família e meus amigos, meu lar é onde estou em cada momento.
A necessidade de querer estar em tantos lugares faz com que pra mim não haja um lugar concreto a que chamar ‘casa’. Essas quatro paredes em que entre elas acumula coisas. Que te prendem a uma cidade. É que não preciso viver durante muito tempo em um mesmo lugar para me sentir parte dele ou, pode ser que eu não goste de fazer parte de alguma coisa por muito tempo, não sei…
Vivo em um estado de contradição constante. Quando estou em Madrid faço todo o possível para me desconectar de tudo que me rodeia, do trabalho, das pessoas, dos acontecimentos e agora que estou aqui, gosto de estar conectada, saber o que acontece lá e contar o que faço aqui. É curioso, mas falo mais com meus amigos estando a 10 mil quilômetros de distância que a só duas quadras.
Hoje levantei com um único objetivo: ver como se põe o sol. Passei o dia me perguntando de onde poderia ver o melhor entardecer. Tinha tanta vontade que cheguei duas horas antes. Aqui estou. Esperando sem desesperar-me, me deixando levar, sem pressa porque realmente hoje não tenho nada melhor para fazer e amanhã, penso em repeti-lo.
Ir de cidade em cidade, de vila em vila, mover-me de um lugar a outro como as pessoas daqui, que usam qualquer meio de transporte faz com que me sinta menos passageira.
Quando era pequena, odiava qualquer trajeto de ônibus de mais de 50 quilômetros de distância, agora faço viagens de 14 horas em ônibus sem banheiro, que param de repente em um mal cheiroso bar de estrada e não o fazem mais pelas seguintes 5 horas, com assentos que não param de mexer ou que não se reclinam o suficiente.
Sei que como plano, soa fatal, mas eu gosto. Gosto de viver isso desde dentro. Quando você sai um pouco do habitual, das rotas e caminhos marcados, quando você se perde é quando acontecem coisas é quando você conhece um país de verdade.
É muito mais cômodo ir de uma cidade a outra de avião, mas você não se perde. Você perde tudo que que acontece ao seu redor.
É incrível como é determinante a forma de ver a vida segundo o lugar onde você nasceu. Ainda que generalizar seja injusto e as comparações horríveis, mas inevitáveis, dependendo do país onde você está vê as pessoas mais ou menos cinzas, mais ou menos comunicativas, mais ou menos abertas e assim, à sua maneira, conseguem seu ponto de felicidade. Conseguem com o muito ou pouco que têm; com o muito ou pouco que conhecem. Creio que a chave é que, segundo meu ponto de vista, me parecem mais felizes, agradáveis ou atentos que eu.
Essa é a razão: o que alguém conhece.
Creio que quanto mais viajo, mais valorizo outras formas de ver as coisas e mais objetiva sou em como devo entender a vida.
Eu gosto de Madri. É uma cidade da qual acabo sentindo saudade.
Estou presa em um permanente estado de insatisfação, que por outro lado me libera constantemente.
Para muitos estou louca. Sou instável, irresponsável e imprudente. Eles não podem levar essa vida. Não a entendem ou não a querem.
Para outros sou uma aventureira, porque eles também sentiram alguma vez a necessidade de romper com suas vidas para viverem outras coisas.
Para mim, ficar quieta em um mesmo lugar, vendo como passa o tempo é renunciar a tudo que não conheço.
Há chegado o tempo de parar? Quero formar uma família. Bem, isso creio; mas não sei nem quando nem onde.
O que sei é que seguiria viajando, mas com eles. Lhes mostraria estes lugares que sempre quero voltar e veríamos outros novos pontos juntos. Encontrei casais com seus filhos dando uma volta ao mundo: duas mochilas grandes, duas pequenas e muita paixão. Assim me vejo daqui há 20 anos.
Sonhar acordado é uma carga muito difícil de carregar. Creio que de alguma maneira sou prisioneira da minha ânsia de liberdade constante e isso, não sei se é bom ou ruim.
Conheço pessoas que são felizes trabalhando no mesmo lugar depois de 10 anos, com sua hipoteca, com suas férias em Menorca um verão após o outro. Não precisam mais do que isso.
De algum modo sinto certa inveja. Eles são felizes com o que têm e vejo isso cada vez mais claramente e eu, bem, já não sou tanto.
Às vezes penso que não posso ser feliz em um só lugar, terei que ser nessa cidade que não existe. Nesta cidade construída no meu imaginário por vários pedaços dos diferentes lugares em que estive e daqueles nos quais ainda estarei. Eu sei, não consigo me explicar.”

O vídeo termina com a seguinte mensagem: “A Síndrome do eterno viajante é a sensação de não estar cômodo em nenhum lugar porque você necessita estar em outros. É a ansiedade que você sente ao pensar que nunca será feliz em um só lugar. É uma ‘doença’… que te salva a vida.”

Faça o teste substituindo espanhóis, Madri e jamón e tortillas de batatas por brasileiros, sua cidade e comidas típicas do Brasil. Se encaixa para viajantes de qualquer nacionalidade ?.

Depois da realização do vídeo, Lucía e Ruben partiram para uma volta ao mundo. Hoje já são pais de um pequeno viajante. Para saber mais sobre eles e a viagem acesse o site Algo que recordar e siga a página no Facebook e o canal no YouTube.

Depois do vídeo, Rubén e Lucía partiram para uma volta ao mundo. Seguem contando suas histórias na web e em palestras mundo afora | Foto: Reprodução Facebook.

Confira também:

Ser mochileiro. Aqui.

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