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Amigos largam empregos para dar a volta ao mundo de bike


Pedir demissão e dar a volta ao mundo. Quem nunca sonhou com isso? Os amigos Julio Pinto, 30 anos, e Henrique Belingieri, 31, não só pensaram como vão tornar o desejo real. E de uma forma diferente: de bicicleta.  A partir de junho, a dupla sai de Buenos Aires em direção a… aos cinco continentes. Ficarão viajando, no mínimo, dois anos, mas não têm data para voltar e nem reservas em lugar algum. Deixarão a vida levá-los. Para planejar o aventura, foram pesquisas e mais pesquisas e cortes nos gastos, como passar a comer fora ou ir a bares com menos frequência – foram até chamados de mãos de vaca por essas mudanças.

A bike não foi o primeiro meio de locomoção que veio a cabeça. Inicialmente, pensaram em fazer o roteiro de Kombi, mas, por entenderem mais das magrelas, optaram por elas. “Viajar de bicicleta é a mais pura tradução da liberdade. É ver e ser visto com sorrisos. As pessoas na estrada buzinam, gritam palavras de incentivo nas grandes subidas, param o carro e abrem suas casas para nos receber”, conta Julio. Fora que, completa ele, “a pé, você não consegue conhecer muito e, de carro, você não consegue conhecer os detalhes”.

Julio Pinto e Henrique Belingieri – Foto: Ciclo Trips

Na mala, ou melhor, nos seus alforjes (malas que vão pendurados na bike), só o necessário para acampar, cozinhar, dormir em rede, suportar temperaturas que vão de 45 a -30ºC e outras situações. O preparo mais difícil mesmo foi o psicológico, já que estão deixando conforto, famílias e amigos aqui – mas também o desânimo das segundas-feiras e de passar 50 horas por semana no escritório. Mas a busca vale a pena. Busca pelo autoconhecimento, pelo não ter medo de chegar aos 80 anos, olhar para trás e se arrepender de ter deixado de ir atrás de um sonho.

Roteiro?

A viagem se inicia em Buenos Aires e segue rumo Norte, passando pelo norte da Argentina para o Chile, cruzaremos os desertos e seguimos via Bolívia, Peru, Equador e Colômbia.

O próximo passo é América Central e México. Depois cruzamos para outros continentes: África, Europa, Ásia e terminamos na Austrália.

Temos no detalhe apenas os primeiros passos. O nosso caminho que fará nosso roteiro final. Afinal, teremos bastante tempo para pensar nisso. Deixaremos acontecer.

Como surgiu a ideia da viagem? Quem pensou primeiro, você ou o Henrique? E quando foi isso?

Nossa primeira viagem juntos, minha e do Henrique, foi em 2011. De lá pra cá viajamos algumas vezes juntos. Em 2011, Bolívia e Peru. Em 2012, Argentina, Chile e Uruguai. Em 2013 a viagem era Peru, Equador, Colômbia e Venezuela (e eu, meses antes de ir, troquei de emprego e não fui, mas a viagem aconteceu). Em 2014 o destino era a América Central, mas foi a vez do Henrique de trocar de trabalho e não poder ir (fui com outros amigos). Em 2016 viajamos juntos novamente. O destino tínhamos desde o começo: conhecer a Patagônia. Fizemos então nossa primeira viagem de bicicleta (detalho isso mais abaixo).

Carretera Austral – Foto: Ciclo Trips

Eu, Julio, já tenho planejado há mais de 3 anos que aos 30 eu iria parar de trabalhar e fazer algo. Dentre as opções que eu tinha as mais cogitadas era morar na Austrália novamente ou então fazer uma grande viagem, uma mochilada de muito tempo ou algo do tipo. E durante a nossa viagem de bike pela Patagônia conversamos muito sobre isso, sobre colocar em prática. Acreditamos que querer, todos querem. Quem não quer ficar viajando pelo mundo por uns anos? Todos, ou quase todos. Agora quantos estão dispostos a cortar gastos do dia a dia, a evitar gastos com coisas que consideramos supérfluas (roupas, comer fora, trocar de carro – dentre outros tantos itens que, trabalhando em uma empresa grande rodeado de pessoas de classe média/alta, acabávamos nós sendo os diferentes, os “mão de vaca”)? Poucos, pouquíssimos. Mas foi o que fizemos e graças a isso chegou a hora de dar um break e colher os frutos desse planejamento.

Assim, em dezembro do ano passado, decidimos que iríamos partir no meio do ano. E foram aí que começaram as pesquisas e planejamentos.

Quanto tempo vão ficar viajando?

Por mais que soe radical, não temos muito um plano de volta. Não temos compromissos aqui, nada. Nada marcado. Temos uma quantidade de dinheiro que nos planos atuais daria pra ficarmos mais ou menos 2 anos e meio na estrada. E esse é o plano inicial: 2 anos e meio. Mas tudo trata-se de planos bem distantes de serem imutáveis. Literalmente a vida e o caminho nos mostrarão a hora certa de voltar (ou não) pra casa.

Por que sair tanto tempo pedalando e não viajando de forma mais convencional?

Bom, aqui começamos a falar de algo que todos que já viajaram de bicicleta tentam explicar mas é difícil a quem nunca viveu isso entender de forma plena. Viajar de bicicleta é, de longe, a forma mais prazerosa que encontramos para viajar.

Tudo começou quando pesquisávamos sobre a Patagônia e encontrávamos na época muitos relatos de viagens em bicicleta. É uma região com estradas longas, de pouco movimento, muita natureza e muitos lugares selvagens para se ir acampando (camping selvagem é acampar onde não é uma área comercialmente dedicada a camping, é acampar na beira da estrada, na beira de um lago, por exemplo).

E mais do que a Patagônia em si, começamos na época a pesquisar sobre viajar de bicicleta. Ler relatos, ver vídeos. E as pessoas sempre tocavam na palavra liberdade. Sempre falavam em conhecer algo de verdade, em aproveitar cada minuto de todo o tempo de viagem, de ter uma liberdade como nenhuma outra modalidade lhe trás.
E de fato foi isso mesmo. A pé você não consegue conhecer muito, e de carro você não consegue conhecer no detalhe. Esse é um dos lemas conhecidos de viajar assim.

La Junta / Carretera Austral – Foto: Ciclo Trips

Queríamos mesmo sair do convencional. Antes de efetivar a escolha pela bicicleta cogitamos ir de Kombi. Desistimos por não entender nada de carro e ser uma logística mais complexa. Aí voltamos a ideia inicial, da bicicleta e assim iremos seguir. Viajar de bicicleta é lindo, é a mais pura tradução da liberdade, é ver e ser visto sempre com sorrisos. As pessoas na estrada buzinam, gritam palavras de incentivo nas grandes subidas, param o carro e abrem suas casas para nos receber. É maravilhoso.

Como foram os preparativos?

A fase preparatória foi bastante complexa. Imagina arrumar uma mala (mais do que arrumar a mala: pensar em tudo que tem que comprar pra ter dentro dela) que não pode ser nem de perto grande ou pesada. Agora imagina que nessa mala tem que ter itens para você ser auto suficiente pra tudo: acampar, cozinhar, dormir em rede, aguentar -30 graus e em outras épocas 45 graus, armazenar água, carregar baterias, dentre outras tantas necessidades.

Essa foi a parte do preparo material, de montar a bicicleta (montamos comprando peça por peça) até as maletas onde vão as coisas até o que vai dentro delas.

A outra parte é o preparativo psicológico. É ter consciência que será um desprendimento. É deixar coisas pra trás por um tempo. É fechar uma parte do livro da nossa vida e abrir um outro, limpinho e cheio de folhas brancas, onde escreveremos a cada dia novas páginas dele.

E, não menos importante mas desde o começo não crucial ou que nos segurasse: a estabilidade. Tínhamos empregos bons, ganhando um salário bom, cargos a serem ocupados se a entrega continuasse. Deixar tudo isso pra trás é o que pode parecer mais loucura para a maioria das pessoas. A pergunta que é quase unânime e a que mais fazem: “mas e quando voltar? pra viver?. E a resposta que damos é que teremos muito tempo pra pensar nisso. Tempo que normalmente gastamos da nossa vida para pensar para outros. Agora não, pensaremos para nós mesmos. E um jeito sempre se dá. Preferimos isso ao comodismo. Ao deixar de fazer com medo do que pode ou não acontecer. Não cairemos na vala comum, pelo contrário nosso maior desejo e não viver isso.

Por onde vão passar? E como decidiram o roteiro?

A aventura tem início em 1 de junho em Buenos Aires, na Argentina. Como de alguma forma nosso tempo e dinheiro é limitado, finito, tivemos e teremos que fazer algumas escolhas em relação ao roteiro. O desejo, caso o recurso fosse infinito, é viajar por muitos e muitos anos. Poder sair de casa pedalando e viver alguns bons anos na estrada conhecendo tudo de forma devagar, vivendo os encontros e desencontros do caminho.

Então fizemos a decisão de não nos deixar tomar pelo ego de apenas ir pedalando. O que achamos ou acharmos que não vale a pena fazer, trocaremos por transportes. Há apenas uma restrição de tentarmos sempre fazer em trens ou barcos, formas mais limpas de transporte. Queremos evitar ônibus, pra ser mais direto. Mas se há uma estrada que é muito movimentada, que oferece riscos de segurança, que pelo relevo demoraríamos muitos dias para fazer um trecho que não valha a pena, cortaremos caminho. E também, claro, será necessário para conseguirmos fazer os 5 continentes.

O plano é percorrer a América do Sul até Bogotá, voar para a América Central (Panamá ou Costa Rica) e pedalar até Cancun. De Cancun, África. De Cape Town até Cairo, no Egito. Passando por Zimbábue, Moçambique, Tanzânia, Quênia, Etiópia, Sudão e por fim Egito (talvez a parte mais dura, exótica e esperada da viagem). Depois alguns meses pela Europa. Rússia e pegar o trem Transiberiano. Depois Mongólia, China e Sudeste Asiático (Laos, Camboja, Vietnã, Tailândia). A viagem termina na Austrália, realizando toda a costa Leste. Mas quem dirá de fato qual será a nossa rota serão os próximos dias que viveremos. Se algo por alguma razão tiver que mudar, se algum acontecimento nos levar para outra rota, assim será.

O que levarão com vocês na bike?

Nosso equipamento é bem completo. Viajar em bicicleta por tanto tempo nos exige ser auto suficientes. Um dos grandes segredos são os equipamentos técnicos: aqueles que são feitos para montanhismo, trekking, cicloturismo, etc. Há nos equipamentos técnicos sempre uma preocupação com o tamanho, com o peso, com ser funcional.

Teremos desde as coisas mais básicas como mais tecnológicas como: carregador solar, fogageiro multi combustível (que funciona com diesel ou gasolina), roupas que são muito leves e ao mesmo tempo aguentam um frio danado, um machado e uma serra no caso de precisar cortar algo, dentre muitas outras coisas.

Para carregar tudo isso são 4 bolsas. 2 na frente, uma de cada lado da roda. Mais 2 atrás também uma de cada lado e uma última por cima das 2 bolsas de trás. As bolsas são na verdade chamadas de alforges.

 

Onde se hospedarão?

Serão de forma geral 3 formas de hospedagem:

Acampar – a forma que procuraremos sempre praticar por ser possível viver mais a liberdade, em ser mais parte da natureza. E, sempre que possível, fora das cidades, em campos, em estradas, em locais mais na natureza.

“Warm Shower” – Esse é um aplicativo onde ciclistas recebem ciclistas em suas casas. Mas não somente através do aplicativo, e sim procurando nas vilas ou cidades pessoas que podem nos acolher, nem que isso signifique ceder um espaço em seu terreno para acamparmos.

Hostels, Pousadas – das 3 opções essa é a única que nos gera um custo. Como dinheiro e racionamento é sim um item importante no nosso planejamento, será a opção que evitaremos. Mas sabemos que em alguns lugares como em cidades maiores, em países mais perigosos, não teremos alternativa. Mas sim será o nosso “Plano C”.

 

Acampando na Patagônia – Foto: Ciclo Trips

O que vocês estão deixando para trás e o que estão indo buscar com essa viagem?
(acho que acabei contando um pouco disso lá em cima)

Deixando pra trás todo o conforto, toda a rotina que tínhamos até algumas semanas. A cama quente, a cerveja gelada aos finais de semana com nossos amigos. Nossas famílias. Nossos empregos, bons empregos. São muitas coisas que pesam bastante. E que impede muitos de realizar algo parecido: as raízes que aqui criamos.

Mas também deixando para trás o ódio pelas segundas feiras e o anseio pelas sextas. As quase 50 horas dentro de um escritório por semana (e todas as dores de cabeça que isso nos traz), a rotina e ainda, no nosso caso, essa loucura que é a cidade de São Paulo.

Sempre em nossas viagens e conversas eu e Henrique destacamos sempre um auto questionamento: “E quando estivermos velhos? Vamos olhar pra trás e ter orgulho de termos feito algo ou por nos arrepender de não ter feito? – agravado sempre pela já conclusão tardia que deveria SIM ter feito…

Então o que estamos indo buscar é a realização de um sonho. Um sonho de viajar o mundo inteiro sem apenas estar de férias. Sem pensar ou ter que pensar em voltar (e até então voltar àquela rotina). Buscamos a liberdade, viver na sua forma mais literal da palavra. Apenas viver, dia após dia.

O que acham que será a maior dificuldade?

Não temos algo em específico. Coisas que nos preocupamos são com as condições climáticas extremas, a África é dura também por inúmeras razões, possíveis quebras de equipamentos em locais de difícil reposição. Enfim, riscos do nosso dia a dia. Mas como experiência da última viagem, ainda que tenha sido apenas 26 dias, mostra que quanto mais os dias passam mais soluções são encontradas para melhorar as coisas, para simplificar o dia a dia.
São dificuldades relacionadas com o que vamos viver mesmo. O que ficará pra trás por esse tempo, aí ficará. Viveremos nossa escolha.

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Texto e fotos: Ciclo trips

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comentários

1 Comment

1 Comment

  1. Célia

    30 de maio de 2017 at 20:31

    Julio boa viagem!!! Aproveite ao máximo essa experiência Tenho certeza que será inesquecível E quando voltar guarde um espaço na sua agenda para contar as inúmeras histórias que viveram Vão com Deus!! Bjs

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