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Dos sentimentos de um mochileiro até o Fim do Mundo


“Ser mochileiro pra mim é tu ter tudo que tu precisa dentro de ti, e o que não cabe dentro de ti tu bota na mochila”. 

É assim que Estevão Zanin define a vida pelas estradas. O gaúcho com espírito de baiano sossegado, compartilha com a gente um pouco das suas histórias e dos sentimentos que movem um apaixonado pelo mundo, sem rumo certo.

Dispensando a comodidade, Estevão é um aventureiro, mochileiro nato que não se apega a rotina e com frequência bota o pé na estrada.

A primeira experiência foi um intercâmbio para a Colômbia, através de uma agência. O plano era ficar seis semanas, que viraram seis meses, como ele mesmo conta pra gente: “Fiquei na casa de uma família, e quando estava terminando o prazo do intercâmbio eles me convidaram pra ficar mais um tempo lá e eu aceitei, porque aquela família me “adotou” e eu me deixei ser adotado por eles. Quando voltei pra casa parecia que algo tinha mudado, é difícil se adaptar de volta na rotina”.

Cabo San Juan – Parque Tayrona, Colômbia

Viagens

“Depois da Colômbia, comecei viajar no estilo mochilão, nada programado, nada no papel. Fui para o nordeste do Brasil, quatro meses pela Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Depois eu quis conhecer melhor o Rio Grande do Sul e segui para a Argentina e Uruguai, onde morei um tempo.
Comecei a viajar de carona, muito com caminhoneiros. Mas já cheguei a ficar 9 horas parado esperando por uma carona.

Também há a questão financeira, de desapegar de alguns bens materiais, viver com um pouco menos. Como a primeira viagem, para a Colômbia, foi planejada por agência, acabei gastando um pouco mais do que nas demais. Em seis meses na Colômbia gastei mais do que nos outros dois anos viajando”.

Das principais coisas que chamam a atenção quando estamos longe do que chamamos de lar, Estevão vivencia sentimentos bons no mundo:
“Sentir o amor das pessoas que tu não conhece. Acho que este é o fato mais legal nas viagens. Teve uma vez que peguei carona indo pra São Paulo e parei numa cidadezinha, e fui dormir numa construção. Armei minha rede, ela estourou cinco vezes, até que resolvi dormir no chão. Coloquei o despertador para o outro dia bem cedo, antes que alguém chegasse na construção pra trabalhar. Mas alguém chegou antes, eu acordei, expliquei a situação. O cara ficou muito tranquilo e disse que eu poderia ficar ali e dormir um pouco mais.  Quando levantei, aquela pessoa estava ali de novo e me perguntou se eu queria um café. Óbvio, mochileiro nunca diz não pra comida. O cara me trouxe um café e três  sanduíches. Isso foi muito forte pra mim, perguntei pra ele porque estava ajudando uma pessoa desconhecida. Ele respondeu “que se a gente não se ajudar, quem vai ajudar a gente?”
E, ainda sobre sentimentos… “Estou aprendendo a substituir a saudade por gratidão. Se as pessoas entraram na sua vida e depois se foram, agradeça por tê-las conhecido”.

Rumo ao desconhecido
A ideia de conhecer a Patagônia acompanha as mentes viajantes e, convenhamos, as não viajantes também.
E, mais uma vez, ele cai na estrada, desta vez acompanhado de um amigo.

Glaciar Perito Moreno – Patagônia Argentina

“São mais de 3 anos nessa vida de Gira Mundo, muitos dias sem saber onde vou dormir hoje ou comer amanhã. Nessa última viagem, sai de Marau, norte do Rio Grande do Sul com meu amigo Yuri Katagiri, com destino ao Fim do Mundo (Ushuaia), que fica na Patagônia Argentina, a cidade habitada mais ao sul do planeta. Com ajuda de alguns amigos conseguimos uma carona direta até Uruguaiana (RS), fronteira com Argentina. Visitamos amigos em Santa Fé – Argentina, onde passamos o ano novo e seguimos viagem, sempre rumo ao extremo sul, cruzando cidades, pântanos, deserto do pampa e fomos chegando cada vez mais perto da Patagônia. Por ironia do destino, perdemos uns 80% do dinheiro no segundo dia de viagem e ficamos com R$ 263,00 para chegar até Ushuaia e depois voltar. Foram quase 10 mil Km entre ida e volta com R$200,00. Nós dois, as mochilas e um sorrisão na beira da estrada pedindo carona. E como sempre, um carro, caminhão, ambulância, ônibus escolar e até polícia parava e nos deixava alguns km pra frente, algumas vezes milhares de km…sem nos cobrar nada por isso. Na grande maioria das vezes quem para na beira da estrada pra ajudar um desconhecido é alguém de coração gigante, com muita empatia e vontade de ajudar. Cada carro que parou, cada carona, era uma injeção de ânimo e felicidade, cada um com uma história pra contar, um incentivo pra continuar a viagem, lanches oferecidos junto com carona eram frequentes (para nossa felicidade). Dormíamos em barracas nos postos de gasolina, beira de estrada, casa de pedágio, na carroceria dos caminhões ou qualquer lugar que parecesse seguro. Depois de uns 8 dias de estrada e 5.000 km rodados, chegamos em Ushuaia, aí tudo já era lindo, quase impossível descrever a sensação de estar lá. Viajamos sempre acompanhados de pessoas iluminadas e paisagens mágicas que levamos conosco para sempre.

Bahia Blanca

Seguimos por mais algumas cidades como El Calafate, El Chalten, El Bolson…e palavras não descrevem o sentimento de viver isso com um amigo de infância, coisas assim nos fazem ver o mundo com outros olhos, algo como olhos de criança. Viajamos em família por alguns dias, a família feita na estrada, ganhamos irmãos de vida e conseguimos sentir um pouco do paraíso em lugares de tirar o fôlego. Acredito que o paraíso seja uma sensação assim, como uma certeza, e é tão real quanto a sensação de um abraço apertado. O paraíso está ai, bem ai, a um passo de distância.
E quando voltar pra casa? Até o termo casa fica meio confuso, com toda a facilidade de comunicação atual não é difícil manter o contato com famílias e amigos, mesmo assim uma vídeo chamada não pode ser comparada com a sensação de encontrar alguém, por isso sempre o universo (ou talvez teu inconsciente) da um jeitinho de fazer esses encontros possíveis, desde uma proposta de carona mágica para onde está nossa família ou um encontro por acaso num mercado no interior de Goiás. O que vale é estar de bem consigo, tua única casa é tu mesmo, se teus pensamentos e teu corpo estiverem bem, todo o resto estará”.

Enquanto finalizávamos este texto, Estevão já está em Londres, pronto para mochilar pela Europa e, Deus sabe lá mais aonde. Acho que vem mais histórias por aí.

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