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Punta del Diablo: el principio de todo


“Decifra-me ou te devoro”. Vamos brincar de esfinge. Porventura será você um enigma para si mesmo? Hora de descobrir [he he]. Como você nasceu? Pergunto literalmente. Parto normal, cesárea, fórceps? No momento havia sol, estrelas ou caía o mundo lá fora? Outra. Por que raios você se chama Fulano e não Beltrano? Nomes não são escolhidos ao acaso.

Vamos mais longe. Quais são suas origens? Seus bisavós, por exemplo,  eram imigrantes oriundos de um país que talvez nem exista mais como a Iugoslávia? Ou eram do interiorzão do Brasil mesmo? Quem sabe algum deles filho de índio com português? Já parou para pensar que sua existência se deve a uma série de eventos que possibilitaram o entrelaçamento dos seus antepassados? Um navio aportado em outro cais, um ingresso de show cancelado, um café comprado 5 minutos mais tarde, uma árvore tombada no meio da estrada… um detalhe, apenas um único detalhe poderia causar um desencontro e resultar na sua total inexistência meu caro (a).

Pois é, a maioria de nós mal consegue matutar ou responder tais indagações. Nossa cultura ocidental, acostumada ao imediatismo e doutrinada ao descarte de tudo que lhe parece obsoleto, não consegue mais olhar para trás, valorizar sua história, suas origens e seus ancestrais. Somos um reflexo de nossa sociedade, muito mais do que pensamos ser. Distorcer a imagem refletida, transformando-a em algo mais belo e humano, é mais árduo do que se supõe.

– Mas do que esta louca está falando? Cadê o diário de bordo, a tal Punta del Diablo e todo o fuzuê? – admita, você está pensando isso.

Não, eu não pirei [ ainda – risos], mas viagens têm disto, você começa a enxergar as coisas sob outro prisma. Quando cheguei em Punta minha primeira impressão não foi das melhores, havia todo aquele vuco-vuco e ponto; caminhei um pouco pela praia para olhar as dunas ao longe e as casas, hostels e pousadas que se aglomeravam atrás de mim.

Próximo à ponta rochosa da Playa de los Pescadores tinham muitos carros parados e algumas construções caindo aos pedaços, curiosa como sempre, fui até lá para averiguar mais de perto. Entrei em uma delas. O cheiro não era dos melhores; os telhados eram feitos de palha e as paredes de tijolinhos de barro à vista, no cômodo maior havia uma chaminé [ou o que restou dela], não sei se funcionava como lareira para esquentar a casa no inverno ou se como fogão; havia lixo e algumas poucas roupas sujas espalhadas pelo chão, provavelmente de moradores de rua. Pensei: “Por que não demolem esta biboca e constroem algo novo? A vista é tão bonita”.

Por vezes, nos esquecemos que lugares não são muito diferentes de pessoas. Eles nascem, prosperam e, cedo ou tarde, deixam de existir [ou, no caso dos lugares, se transformam]. Não ganham nomes ao acaso e são construídos devido a uma série de eventos que possibilitaram o entrelaçamento de pessoas que, em algum momento, passaram por ali. Mas por sorte, ocorrem situações que nos fazem lembrar disto.

Alguns dias mais tarde voltei para fotografar o lugar. Percebi que havia um homem dando instruções para os banhistas que estacionavam seus carros naquele local. Acerquei-me. Ele era alto, de idade média e pele bem queimada de sol. Perguntei-lhe sobre as tais construções e ele me respondeu que foram as primeiras casas construídas ali. Há muito, muito tempo. Apontou para a construção maior e me disse: “Mira. Aquel fue el primer restaurante de aquí, cuando ni siquiera había nada. Así empezó el pueblito de Punta del Diablo. El principio de todo…”

Naquele instante me dei conta de que “aquelas casas”, que a meu ver não passavam de construção deteriorada, simbolizavam o registro de nascimento daquele lugar, “daquele povoado”. Envergonhei-me e aprendi a minha primeira lição de viajante: enxergar nos lugares a história que eles carregam.

Guardei a câmera, caminhei um pouco adiante e sentei sobre as pedras. Comecei a observar os barcos de pesca, parados na areia, descansando longe do mar. Deviam estar exaustos. Mais além, próximos da rua onde se abraçavam os restaurantes, havia mais alguns, aparentemente aposentados. Ao invés de peixes, agora pousavam pássaros. Quantos pés de pescadores cruzaram aquelas areias quentes e puxaram aqueles barcos? Não é o tempo que apaga a história dos lugares, mas sim aqueles que a continuam sem olhar para trás. Para eles… para nós… existe apenas o presente.

Em busca de memórias

Despertei cedo. Minhas companheiras de quarto ainda dormiam enroladas em suas cobertas [eu sei que é verão, vou fazer o que? Morrer de frio no inverno certamente]. Tomei meu café da manhã: suco, café com leite, pão com manteiga, geleia de frutas [de verdade] e doce de leite [muito melhor que Nutella]. Bunda no sofá, pernas esticadas, celular nas mãos. É de praxe dar um salve para a família todas as manhãs, assim constatam que não fui sequestrada ou abduzida [em ambos os casos logo devolveriam]. E assim do nada me veio a pergunta: por que Punta del Diablo? Nomes não são escolhidos ao acaso.

Meu anfitrião que estava lá organizando o café foi o escolhido para me responder. Ele me explicou que antigamente toda aquela região era chamada de Angostura; atraídos pela pesca de tubarão, começaram a chegar ali pescadores vindos de Valizas – povoado vizinho –, e com isso o lugar ganhou o nome de Cerro de Los Pescadores de la Punta del Diablo,  já que eles – os pescadores – vinham de Punta del Diablo, um lugar geográfico com este nome, localizado no povoado rochense.

”E por que este tal lugar chamava Punta del Diablo?” – perguntei. Segundo ele porque era uma zona onde afundavam muitos barcos de pesca [acaso seria o Triângulo das Bermudas Sul-Americano?]; ocupado demais para ficar me bajulando, entregou-me um livrinho verde com mais algumas informações. Agradeci, porém ainda não estava satisfeita. Fui em busca de mais dados, e veja só o que eu descobri.

Lá por volta de 1935 havia uma família, cujo sobrenome era Rocha, que se inteirou que seu filho tinha asma. E nesta época o que os médicos recomendavam para isso? Exato. Ar puro na beira da praia. Os Rocha escolheram a costa de Punta del Diablo [que ainda nem tinha esse nome] para se estabelecerem e construírem seu rancho, transformando-se assim nos primeiros povoadores do local. O tempo se passou. Era 1942, quando começaram a aparecer alguns pescadores vindos de Valizas, a procura de que? Essa parte você já sabe: tubarão.

A pesca de tubarão era muito rentável, pois se podia extrair o óleo do fígado e exportá-lo. Isso ocasionava no traslado temporário de pescadores a estas costas oceânicas, onde armavam seus ranchos em condições precárias. A vida não era fácil e o acesso até lá menos ainda. Com muito custo traziam a maior parte da comida de Castillos, outro povoado vizinho. Chegaram a criar umas vaquinhas e a fazer uma horta, mas tinham que protegê-la dos fortes ventos [e como venta ali viu] e do inverno [e como faz frio ali viu].

Já por volta de 1949 construíram a Hostería del Pescador. Claro que tiveram que fazer uma estrada que ligasse a Ruta 9 até ela, senão seria falência na certa. O lugar começou a atrair turistas de toda parte do Uruguai. Tinha até gringo chegando. A partir da Hostería podia-se concluir o trajeto de carroça até a ponta [só em 1968 que terminaram o acesso até ela].

Como estavam lavando a égua com a pesca de tubarões, os pescadores conseguiram melhorias significativas para o povoado. Construíram uma escola para a pivetada, um museu [eles sabiam olhar para trás] e montaram uma cooperativa. Alguns até conseguiram melhorar suas embarcações, equipamentos e montar galpões de pesca.

Mas como não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, a exportação do óleo de fígado de tubarão foi para o beleléu com o fim da Segunda Guerra Mundial.  E como não é só brasileiro que sabe dar um jeitinho, o povoado logo começou a investir na salga e secagem dos filés de tubarão.

As mulheres começaram a confeccionar artesanatos com materiais próprios do local: vértebras de tubarão, estrelas do mar, pedra, madeira etc; e criaram uma feira de artesanato para atender a turistaiada, gerando assim mais uma fonte de renda, sobretudo, na baixa temporada de pesca.

Ah, quanto ao nome do lugar, mudou bastante até chegar ao que é hoje. Aldea del Mar. Santa Teresa de la Coronilla. Na metade do século XX virou Cerro de Los Pescadores de la Punta del Diablo [você já sabe a razão] e finalmente Punta del Diablo. Ufa!

E pensar que eu havia desmerecido aquelas casinhas. Não vou fazer conclusões filosóficas. Passo-as para você. E como companhia para sua reflexão, deixo as palavras de um escritor uruguaio, o qual nutro profunda admiração, chamado Eduardo Galeano: “Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas me contou um passarinho que somos feitos de história”. Nós e os lugares.

 

Referências [que me deram uma luz]

La Guía Verde 2017. Guía de servicios culturales y sociales de distribución gratuita. [o tal livrinho verde]

Portal de Punta del Diablo. http://www.puntadeldiablo.com/historia/index.asp [As informações constantes são baseadas nos livros Punta del Diablo de Jorge Pasculli e Crónica de Punta del Diablo – Memoria e Identidad de Humberto Ochoa Sayanes; e relatos de povoadores que agregaram suas próprias histórias.]

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