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Ser mochileiro

Por Gilsimara Caresia*

“É tirar o peso da cabeça e do coração e colocar em uma mochila junto com o tênis velho. Há quem ache que é fuga, mas é vida, é a vida na essência. Porque é abrir mão do esteriótipo de quem somos e ganhar a liberdade para ser quem quisermos.  Rever conceitos sobre lugares, quebrar preconceitos sobre culturas.  Chorar ao chegar naquele lugar sonhado que, na infância, vimos no livro da escola. Ter a certeza que todos os perrengues e abdicações valeram a pena, estamos ali.

Gilsimara no Nepal | Foto: Gilsimara Caresia/Arquivo pessoal.

Gilsimara no Nepal | Foto: Gilsimara Caresia/Arquivo pessoal.

Perceber que muitas vezes não é sobre a paisagem, mas sim sobre as pessoas. É se sentir parte, apesar de estar com estranhos em um lugar longe.
Retribuir sorrisos de crianças, de desconhecidos, perceber que o sorriso mais bonito que você viu na vida foi o de alguém sem alguns dentes.
Falar de filosofia, futebol, de coisa que você nem sabia que existia. Comentar com um novo amigo o quanto aquele outro mochileiro é interessante.
É ver os mais lindos pores do sol do mundo. Mas se a tarde estiver nublada… quem ser importa com as nuvens quando a companhia é boa e o vinho estava em promoção?
Adorar o cheiro e o som da chuva. E se tiver música então? Aquela que lembra um momento que só nós sabemos.
Trocar o restaurante pelo sanduíche do mercado para poder garantir uns trocados a mais.
Dividir o saco de salgadinho e a cerveja quente com a galera de todos os continentes e se sentir no melhor banquete.
E aquele macarrão de rua que custou um dólar? O mais saboroso da nossa vida porque veio depois da melhor festa.
Acordar tentando lembrar onde está e, às vezes, como chegou ali.
Dividir quarto com alguém que você conheceu há meia hora, só para ficar mais barato… Pegar aquele quarto úmido e com a pintura descascada e pensar: obrigado universo por meu desapego.
Dormir ao relento, no aeroporto, no ônibus para economizar…
Mas se não dormir, melhor ainda! Vamos combinar? Aquela noite em que pagamos hospedagem e nem voltamos para nossa cama são as melhores.
Ver na timelime amigos casando e tendo filhos e se perguntar se aquilo é para você.
Mas às vezes sonhar em ter um filho para compartilhar tudo o que aprendemos na estrada. Pois o que se aprende viajando é sabedoria para a vida cotidiana.
Se sentir completo sozinho e nem saber o por quê conseguimos contradizer com tanta facilidade a regra de que é impossível ser feliz assim.
Se perguntar se o grande amor da nossa vida era aquela pessoa que sentou do nosso lado no trem e, que depois de horas de conversa, veio o inevitável adeus.
Ou seria aquela com a qual tivemos a melhor noite de sexo no lugar mais inusitado? Ou ainda a que em pouco tempo contamos todos os segredos e depois nos despedimos com um último beijo ou com a vontade do primeiro.
É ir com desejo de ficar, ficar com vontade ir, em meio a uma guerra entre mente e coração.
Aprendemos a falar olá e adeus com a mesma facilidade. Vida de mochileiro é uma eterna partida.
Uma vez escutei: “não sei como me despedir, compartilhamos muita vida em pouco tempo”. Nesses casos, o corpo vai e o coração fica.
Ah, que bom que temos memória e fotos. E faz parte na hora da foto tentar disfarçar que estamos usando as mesmas roupas faz dias. E quando nos marcam em uma foto que nem lembrávamos que existia? Tão bom reviver o momento.
Ser mochileiro é ser entregue, é viver o imprevisto, aceitar o imprevisto, se apaixonar pelo imprevisto.
Deixar a vida tomar as rédeas, perder o controle, viver um dia de cada vez, como se fosse o último.
Um dia vai ser o fim e estamos preparados, porque vivemos os nossos sonhos.
Tem medo da morte quem tem pendências com a vida. Por isso ela não nos assusta e o medo não nos para.
Só tem uma coisa capaz de fazer um mochileiro voltar ou ficar, não é dinheiro e nunca será.
O que nos move e nos faz parar é o AMOR, somente ele.”

*Gilsimara Caresia é brasileira, autora da página GirlsGo e membro do Mochileiros.com desde 2002. Já visitou mais de 70 países e ainda não encontrou motivos para ficar ou voltar, então, apenas continua…

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