Blog

Um (nada) breve relato sobre a subida do Vulcão Tunupa, no Salar de Uyuni (Bolívia)


Por Ohana Waichert

Imensidão de sal, apacheta, mato espeta-bunda e um sentimento absurdamente gratificante.

Um (nada) breve relato sobre a subida do Vulcão Tunupa, no Salar de Uyuni (Bolívia) e um lembrete pra mim mesma de como as coisas sempre encontram um jeito de darem certo no final. 🙂

Apacheta são essas pedrinhas empilhadas, elas são homenagens ou altares que os povos andinos fazem para Pachamama. São uma espécie de santuário de pedra e é muito comum encontrá-las nas partes mais difíceis de estradas e trilhas. Elas também servem para marcar caminhos e fazer pedidos. É bem comum encontrar bilhetinhos com pedidos entre uma pedra e outra. O mato espeta-bunda, bom.. o nome já auto explicativo, rs.

Apacheta: São essas pedrinhas empilhadas, elas são homenagens ou altares que os povos andinos fazem para Pachamama. – Foto: Ohana Waichert

Em janeiro, resolvi praticamente de última hora, mochilar pela Bolívia! E ai naquela correia toda, tive a super a ajuda de uma amiga pra montar um roteiro de viagem em 2 dias. O Vulcão Tunupa não fazia parte desse roteiro e eu nem se quer sabia de sua existência! Ele foi um desses acasos surpreendentes que a gente enfrenta na vida e que nos marcam pra sempre.
É no vilarejo de Coqueza que encontramos esse gigante vulcão multicolor, que segundo a lenda dos povos que habitam a região, foi de suas lágrimas que surgiu o imenso deserto de sal.

Chegando no vilarejo, nos disseram que a subida até topo do vulcão só poderia ser feita com guia e alguns equipamentos, então naquela mesma noite o nosso grupo conseguiu fechar com um guia local para fazer a subida as 4 fucking horas da manhã do dia seguinte.
Apesar de termos ido em uma época de chuvas, o deserto estava absurdamente seco e havia meses que não chovia na região. Mas naquela noite choveu horrores! Uma chuva torrencial barulhenta.
Às 4h da manhã o mundo ainda estava se acabando em água, mas mesmo assim já estávamos todos de pé (ou quase, no meu caso), o nosso café já estava na mesa (<3 ) e o nosso guia estava na porta do pequeno hostel totalmente encharcado. Ele disse que podíamos esperar mais um pouco, mas que naquela noite havia nevado no topo no vulcão e a subida seria bem complicada.
Esperamos até as 5h e como ainda era água que não acabava mais, resolvemos cancelar com o guia (que só enxergava de um olho! Tá..não é lá uma informação relevante, mas é pertinente, rs).
Às 5h30 a chuva sim-ples-men-te parou. Resolvemos então sair pra ver uns dos nasceres do sol mais bonitos do mundo. E foi quando o dia clareou que um vulcão multicolor com o topo todo em neve apareceu bem atrás da gente, nos fazendo tomar uma decisão gloriosa: vamos subir essa porra sem guia mesmo.

Vulcão Tunupa – Oruro – Bolivia – Foto: Jessie Reeder

No caminho, passamos na oficina dos guias para pegar nosso dinheiro da subida de volta. Mas eu tive que voltar literalmente correndo pro hostel pra pegar o bendito do recibo que eu tinha deixado na mochila. Nisso eu me perdi 3 vezes no caminho (que envolvia subir e descer várias pedras e isso é horrível pra quem não tem senso de direção nenhum). E na volta fui surpreendida por uma procissão de lhamas! Que me deixaram encurralada no meio delas por um looooongo minuto, numa mistura de sentimentos entre ‘eta porra eu vou morrer esmagada aqui’ e ‘aiinnn meudeusu eu quero abraçar essas lhama tudo’. Pensamento inclusive que eu precisei me conter muito para não fazer.
Mas elas passaram e eu sobrevivi a essa experiência louca, segui meu rumo e encontrei com o grupo no pé do vulcão. Só nessa brincadeira eu já estava exausta, colocando os bofe pra fora. Respirar já estava difícil ali e a subida nem tinha começado.

Seguimos. Eu fui ficando pra trás, a falta de ar provocada pela altitude e os problemas respiratórios que já tenho somados ao sedentarismo da época, foi um combo perfeito! Mas ainda bem que nessa vida encontramos amigos sedentários pela jornada (obrigada, João e Javi!) e seguimos capengando os 45 minutos de subida até o primeiro mirante, que é a base do vulcão e onde abriga algumas múmias pré-incaicas. Quando chegamos, o resto do grupo já havia continuado a subida e nós tínhamos decidido que pararíamos por ali, eu já não tinha condições de continuar.

Passados alguns minutos e o corpo quase recuperado, eu fui tomada de um sentimento de ´porra, olha só onde eu estou’ e resolvi continuar a subida! A partir dali eu estaria sozinha e prometi pra mim mesma que iria com calma e seguiria até onde minhas condições me permitissem.
E a primeira grande decisão a ser tomada foi escolher pra qual lado seguir quando a trilha desapareceu e uma bifurcação enooorme apareceu na minha frente. rs

Não estava fácil, eu mal conseguia respirar, meu corpicho brasileiro acostumado ao nível do mar, estava sofrendo com a altitude e não tinha folha de coca que ajudasse! (btw, mascar aquilo é horrível! Recomento uma balinha caseira de caramelo e coca que é show!)

Mas apesar do medo e da falta de ar, desistir não passou pela minha cabeça em nenhum momento. Eu colocava metas pequenas pra mim mesma e meu objetivo era sempre chegar até a próxima pedra! E depois a próxima, e depois a próxima… E sempre que eu olhava pra trás e me deparava com aquela imensidão de sal, um sentimento indescritível tomava conta de mim. Lembra daquela chuva toda? Ela serviu pra espelhar aquele deserto imenso, que refletia o céu azul celeste, deixando aquela visão uma memória inesquecível. Eu mal podia dizer o que era deserto e o que era céu, eles se misturavam. Eu mal sabia dizer o que eu estava sentindo! O coração explodindo no peito não era apenas efeito a altitude, era gratidão transbordando!

Durante boa parte do trajeto conter as lágrimas era uma tarefa difícil, não porque estava complicado para respirar ou minha água estava realmente no fim, ou até mesmo porque minha bota estava deixando o meu calcanhar em carne viva! Mas sim pela energia daquele lugar, que era incrivelmente forte.

Em alguns trechos a altitude aumentava bruscamente e dar um simples passo pra frente se tornava um tarefa bem difícil, ai é nessas horas que você precisa sentar um pouco pra dar aquela descansada. E conhecer o significado do mato espeta-bunda.

Passado um bom tempo de subida eu consegui avistar algumas pessoas do grupo e yay!! eu não estava perdida. Depois de muito esforço, consegui alcançá-las. Elas estavam descansando e se preparando pra descer, também estavam sem água e continuar seria muito complicado. Um casal havia acabado de desistir e voltado. Nós não sabíamos quanto tempo mais faltava pra chegar ao topo e o caminho muito íngreme não nos deixava ter muita noção de onde estávamos.
Mas antes de desistir eu me coloquei uma última meta: só até aquela próxima pedra. Consegui convencer mais uma pessoa a ir comigo e quando chegamos à pedra, o caminho deu esplanada, nos permitindo ver um pouco mais a frente. A partir dali, o caminho era mais fácil, mais plano! Seguimos um pouquinho mais e foi quando a mágica aconteceu: o tempo abriu e o topo de um puta vulcão multicolor apareceu logo ali, bem na nossa frente.
Nós teríamos desistido tão, tão próximo….
E foi de lá de cima que essa foto foi tirada, a 5 mil metros de altitude, onde se tem a melhor vista do Salar.
E a foto é bem injusta! Não mostra 1/3 do que de fato é a visão do lugar.

A descida foi mais tranquila, descemos conversando e nos distraímos, acabamos virando em algum lugar e nos demos conta que estávamos fazendo um caminho bem diferente, era menos ingrime do que o da subida e mais rápido também. Ao chegarmos no primeiro mirante, perguntei para um senhor simpático que tomava conta das múmias se existiam dois caminhos até o topo.. ele me perguntou por qual lado eu havia subido, e ao apontar pra direita, ele disse num baita sorriso: ohh, es un camino más grande, más peligroso! Pero es mucho más loco! 8|

Superar medos e não desistir ali foi um ensaio pra muita coisa que ainda estava por vir na viagem, como a subida do Chacaltaya ou quando no topo da estrada da morte eu peguei uma bicicleta que eu não dava pé (ééé gente pequena sofre!) e que o freio esquerdo não funcionava muito bem, o que me causou uma bolha enorme na mão que ganhou até nome e virou companheira de viagem. Mas tô viva, tô bem. E tô cheia de histórias! 🙂

>> E então o seguinte: Não desista. Não deixe que um sentimento de incapacidade cresça e tome conta de você. O melhor impulso para a falta de coragem é meter a cara e sair de lugar mesmo! Porque sempre há uma chance da gente tropeçar em algo maravilhoso. E é impossível tropeçar em algo enquanto estamos sempre sentados no mesmo lugar.

Desafie a si mesmo. 🙂
Feliz 2017!

E se for subir o Tunupa, vá na fé e vá sem guia! E ao chegar o primeiro mirante, siga o caminho da –esquerda–! haha

Votar

1 ponto
Upvote Downvote

Total de Votos 3

Votos Positivos: 2

Upvotes percentage: 66.666667%

Votos Negativos: 1

Downvotes percentage: 33.333333%


Comentários do Facebook

comentários

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top

E aí, tudo bem? Bora logar!

Entrar

Esqueceu a senha?

Ainda não tem uma conta? Cadastro

Fechar
de

Enviando Arquivo…