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Uma viagem pela Argélia


Por Guilherme Canever*

A Argélia não era uma novidade para mim. Desde muito pequeno escutava as histórias deste que é o maior país da África. Meu avô, Professor Bigarella, contava com brilhos nos olhos sobre suas experiências na Argélia. Na década de sessenta havia sido chamado pelo recém-independente governo para prospectar petróleo. Como cientista, acabou se apaixonando mesmo pelo Saara Argelino, onde considerava ser o lugar mais bonito do mundo. Podem dizer que é entusiasmo de geólogo, mas muitos que conhecem Tassili N´ajjer ou as montanhas Hoggar hão de concordar.
Eu já havia viajado extensamente por países árabes e mais ainda pelo mundo islâmico. É normal que se tenha expectativas e se faça comparações. Talvez por causa disto que minha recente viagem pela Argélia tenha sido tão marcante. Foi completamente diferente do que imaginava. Esqueça referencias como Marrocos e Tunísia, por exemplo.

Ruínas romanas de Timgrad | Foto: @saiporai

O Marrocos, uma monarquia alinhada com o ocidente desde sempre, ao lado de uma Argélia revolucionária, que dependeu por tanto tempo da URSS, parecem água e vinho. A distinta colonização teve um papel importante no desenvolvimento da cultura e estrutura dos países. A Argélia foi ocupada pela França por mais de 130 anos, tempo significativamente superior a da Tunísia, e mais que o dobro da do Marrocos. A maneira como foram conquistadas e administradas também foi muito diferente.
Tratados foram assinados com os governos do Marrocos e Tunísia, transformando-os em uma espécie de protetorado. A Argélia perdeu seu território pela força, e não teve como reconquistá-lo a não ser pela guerra, uma brutal guerra de independência. A França administrava o território argelino como parte integral do país, a chamada Argélia Francesa. Semelhante ao que ocorre com a Guiana Francesa e a Polinésia Francesa hoje em dia. Porém os argelinos tinham direitos diferentes naquela época. Os Pied-Noir (colonos de origem francesa) eram privilegiados em relação aos argelinos nativos. Inevitável que isto fosse questionado e reivindicado.

Cânion Ghoufi | Foto: @saiporai

Sempre soube que a Argélia era uma sociedade conservadora. Talvez por isto tenha me surpreendido tanto ao ver mulheres sem nenhum tipo de hijab na minha chegada ao aeroporto de Argel. Longe de ser maioria, mas quando meus anfitriões chegaram para me buscar, notei que ela estava de saia e blusa sem manga. Um mês antes havia publicado um pedido de lugar para me hospedar na casa de anfitriões argelinos através do aplicativo “Couchsurfing”. Quem conhece a ferramenta sabe que nunca é tão fácil para receber uma resposta. Para minha surpresa, recebi mais de quinze convites em poucos dias, e logo tive que cancelar o pedido para não frustrar as pessoas. Não foi diferente nas outras cidades. Em toda a viagem, me hospedei na casa de argelinos. Médico, vendedor de kebab, estudante, cineasta, desempregado, vendedor de jogos piratas, dentre outros.
Quando não era através do aplicativo, recomendavam um parente, amigo ou alguém disposto a ajudar, indo até mesmo me buscar na rodoviária em plena madrugada. Lanchinhos para a viagem e presentes não eram incomuns.
Com tantos contatos feitos antes da minha chegada à Argel, resolvi fazer um encontro para conhecermos o Casbah, deixaria outras atrações para conhecer sozinho. Pelo menos uma dezena deles compareceu. Bom para o relacionamento e para a segurança também. A decadente parte antiga da cidade, apesar de ser patrimônio da Unesco, não é muito turística. Dizem ser lar de pequenos delinquentes e até ex-terroristas, que se escondem pelos labirintos formados pelas ruelas. Perigoso? Exige cuidados, mas com certeza muito mais seguro que áreas centrais de diversas grandes cidades brasileiras.

Casbah de Argel | Foto: @saiporai

O Casbah fica numa colina que desce até o mar, onde existem casarões escondidos atrás de portas decoradas e pouco lembra as Medinas do Marrocos e da Tunísia. Na ocupação francesa não havia muito espaço para a cultura argelina, então Medinas e outros símbolos nacionais foram destruídos. Alias, “Medinas” mesmo, antigas cidades muradas, praticamente inexistem no país. Uma grande exceção talvez seja o vale M´zab, já bem adentro do Saara. Cinco cidades fortificadas (Ghardaia é a principal delas) preservam arquitetura, cultura e até religião própria. Mesmo os árabes tem dificuldade em se estabelecer por lá. Os Mozabites são berberes, praticam uma vertente do islamismo chamada Ibadismo e tem um conjunto de leis que regem a sociedade bem especifico.

Área da cidade de Ghardaia | Foto: @saiporai

Árabes que vivem na região às vezes se revoltam, e conflitos são inevitáveis, causando muita dor de cabeça ao governo. Governo, aliás, que é muito impopular, mas visto como única opção. Insatisfação impulsionada pela crise econômica de um país que depende quase que exclusivamente da exportação de gás natural e petróleo, taxados por preços internacionais. O valor do Dinar Argelino é 60% menor no mercado negro. Dizem que o próprio governo acaba especulando e se beneficiando com isto, na espera de uma alta do petróleo para restabelecer a economia. Pude observar diversos prédios, às vezes cidades inteiras que estavam em construção e foram abandonadas. Ao perguntar o porquê da Argélia não ter tido uma “Primavera Árabe” a resposta era sempre a mesma. Tivemos os “(anos) 90`s negros, esta foi a nossa Primavera Árabe”, referencia a guerra civil argelina que durou uma década. Na época, logo após o colapso da URSS, o partido de oposição, Frente Islâmica de Salvação, ganhava as eleições.
O governo não deixou que assumissem e a oposição se organizou para uma luta armada. Estima-se que 200 mil pessoas foram mortas, grande parte civis. Hoje o país está bem mais calmo, somente algumas regiões no extremo sul da Argélia devem ser evitadas. Sim, mesmo depois da anistia, alguns terroristas continuam em atividade e até juraram lealdade a Al-Qaeda, mas estamos falando de regiões a dois mil quilômetros desde a capital Argel. A Argélia é cheia de atrações, tem um inimaginável potencial turístico.
Dezenas, talvez centenas de ruinas romanas. Mesmo nas mais impressionantes delas, como Timgrad, Djemila ou Tipaza, provavelmente você será o único visitante. Se sobram pontos de interesse, falta informação e infraestrutura para o turismo.
Nas montanhas, não é difícil de se encontrar argelinos fazendo piquenique. Ghoufi, com suas fortificações berberes ao longo do cânion estava repleto de famílias passeando. Mais próximo do mediterrâneo é onde a vida pulsa. Se por um lado os argelinos reclamam das opções de lazer, por outro improvisam quando tem tempo livre. A infraestrutura nessa região também é muito melhor, tendo inclusive uma excelente autoestrada que corta o país de leste a oeste.
Próxima do Mediterrâneo, a cidade de Constantina não tem praia, mas nem por isto falta vida. Apesar de ser a terceira maior do país, é uma cidade muito acolhedora. Um clima de cidade pequena em uma metrópole. Lá se toma café em vez de chá, bebida que era mais popular no interior do país. Diversas boulangeries onde se pode parar para ver o dia-a-dia e admirar as belas pontes que ligam a cidade velha, pendurada na beira do penhasco.

Pontes de Constantine | Foto: @saiporai

O arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer projetou alguns monumentos na Argélia, mas provavelmente o mais famoso seja a Universidade de Constantina.
Minha despedida do país foi em Annaba, cidade onde viveu e morreu Santo Agostinho, um dos maiores filósofos do cristianismo. Visitei a imponente basílica no topo da colina, logo acima das ruínas da cidade de Hipona. Aproveitei a praia, tomei banho de mar e a noite discuti o dia-a-dia dos meus anfitriões tomando duas garrafas de vinho argelino. Durante todo o período da viagem, não conseguia parar de pensar como não adianta somente ler e estudar sobre um país, porque a nossa capacidade imaginativa tem limites. É preciso experimentar. A Argélia talvez seja uma das maiores provas disto.

*Guilherme Canever é engenheiro florestal, escritor, palestrante e um apaixonado por viagens; amante da natureza e adepto do turismo cultural, em todos os seus aspectos, desde costumes, político-social e religioso. O que mais o motiva a viajar é o contato com o desconhecido, viver e aprender com o diferente.

Você pode saber sobre as viagens de Guilherme Canever no site, Facebook e Instagram.

Texto originalmente publicado em http://internacional.estadao.com.br/blogs/gustavo-chacra/uma-viagem-pela-argelia-por-guilherme-canever/

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