Entrevistas

Entrevista com o montanhista Augusto Carvalho

Amante das serras e praias do Brasil, o bacharel em Geografia, Augusto Carvalho faz parte de um seleto grupo de montanhistas que transformou as trilhas e travessias da região sudeste do Brasil em quintal.  Há mais de uma década seus relatos publicados na comunidade Mochileiros.com e em seu Blog Trilhas e Trips, foram a principal fonte de informações para todos aqueles que se aventuraram por essas bandas. Difícil encontrar um trilheiro ou montanhista que não tenha se inspirado em um dos seus relatos. Confira a seguir o bate-papo que tivemos com ele:

MB-  Augusto, como e quando começou seu interesse pelo Montanhismo e pelas trilhas e qual foi sua primeira viagem (para que local e quando)? 
Quando eu fazia o ensino médio, no final da década de 80, eu participava de uma turma que sempre estava fazendo trip próxima de SP. Naquela época a nossa diversão era a Serra do Mar, principalmente na região de Paranapiacaba. Era uma caminhada de bate volta visitando a Cachoeira da Pedra Lisa e chegando até o Poço das Moças. Ali já comecei a gostar da caminhada e o contato com a natureza. Esse foi um dos motivos a me identificar com a geografia, mas por imposição da família, ao entrar na Faculdade, tive que escolher um curso voltado para a área que eu trabalhava. Era um curso de Engenharia, mas não me identificava com ele, por isso uns 2 anos depois resolvi largar tudo e fazer a FUVEST. Entrei no curso de Geografia e aqueles 5 anos estudando foram um dos melhores anos da minha vida. Tínhamos muito trabalho de campo e as viagens eram rotineiras. O curso é muito voltado para essa parte pratica, então eu adorei. Além dessas viagens da Faculdade, sempre marcava alguma trip com colegas de sala de aula, então ali foi que eu percebi que o montanhismo era a minha cara. Então as minhas primeiras trips foram para a serra do mar na década de 80, quando o trem ainda chegava em Paranapiacaba.

MB –  Analisando seus relatos (postados no seu blog e no Mochileiros.com) percebemos que você fechou o foco no Brasil, mais precisamente na Região Sudeste. Fez as principais travessias de montanha e Litoral desta região. Por que essa escolha? E nessa região, ainda tem algo que você não conheça e quer explorar/ conhecer?
Dei preferencia nas minhas caminhadas a lugares onde já conhecia a região e que a logística não fosse um empecilho para chegar lá. Procurava sempre me precaver lendo tudo sobre a travessia ou trilha que ia fazer para não ter problemas depois, já que a maioria das minhas caminhadas eu sempre fazia sozinho ou com no máximo 1 pessoa a mais. Acho que esse planejamento inicial é fundamental para o êxito de uma caminhada. Um exemplo que posso citar é a travessia Salesópolis-Praia de Boiçucanga pela Serra do Mar. Eu tinha lido um artigo da Folha de SP na década de 90, onde nem se falava de internet. Na época eu até guardei a reportagem para quem sabe fazê-la algum dia, mas eu não tinha nada de informação, por isso fui deixando de lado. E em 2002 fiz parte desse caminho de moto para ver como era o percurso na caminhada e só em 2012 conclui essa travessia, mas depois de pesquisar bastante no google. Quanto a lugares que ainda não conheço na região sudeste, acho que sobrou muito pouco e o que restou são caminhadas bem parecidas com outras que eu já fiz. Na Serra da Mantiqueira especificamente já caminhei pela crista de oeste a leste, do início dela na Serra do Lopo até o final em Visconde de Mauá, por isso retornar a essa serra vai demorar um pouco. Talvez fazer alguma coisa no litoral: uma travessia de praia ou retornar à Paranapiacaba depois de uns 20 anos. Desde que os roubos, no final da década de 80 e início de 90, tinham virado rotina naquelas trilhas, nunca mais voltei.

Augusto em uma piscina natural na Travessia da Serra Fina de sul a norte pelo Rio Claro - Foto: Augusto de Carvalho - Arquivo Pessoal

Augusto em uma piscina natural na Travessia da Serra Fina de sul a norte pelo Rio Claro – Foto: Augusto de Carvalho – Arquivo Pessoal

MB – De todas as trilhas e travessias que fez, qual foi a mais complicada e qual foi a mais bela, a que lhe impressionou mais e por que?
Das trilhas/travessias mais complicadas eu tenho várias para citar, mas vou destacar apenas 2 que eu sempre lembro para servir de exemplo. Uma delas é a Trilha do Corisco (que liga Ubatuba à Paraty) quando fiz pela primeira vez em Outubro de 1998. Parte dessa trilha eu tinha feito uns meses antes por uma agencia de ecoturismo de Ubatuba. Na época só chegamos até um local chamado Poço da Rasa, mas o guia nos disse que a trilha continuava até Paraty e aí peguei algumas informações com ele. Mas ao fazer essa trilha com minha ex-namorada me empolguei demais, porque fui parando em várias pequenas cachoeiras e poções. Isso sem, contar os perdidos que nos fez tomou tempo demais. Com isso, começou a escurecer e a gente ainda estava no meio da mata e nessa hora bateu o desespero na ex-namorada. Nós estávamos somente com uma pequena mochila de ataque, pouca comida e quase nada de blusa e sem lanternas. Então se a gente tivesse que dormir na mata íamos passar fome e frio. Mas mantive a calma e procurando aqui e ali achei a continuação da trilha. Lembro que ao chegar na Rodoviária de Paraty já não tinha mais ônibus para voltar à Ubatuba, onde estávamos hospedados. E aí tivemos que embarcar em um ônibus para SP por volta da meia noite e desembarcar em Ubatuba, chegando quase 2 hrs da manhã na Pousada. Serviu como lição. Outra caminhada muito complicada foi a travessia da Serra Fina de sul a norte pela Trilha do Rio Claro. Foram cerca de 4 dias só escalaminhando pelo leito desse rio saindo de uma altitude de próxima de 1000 metros até quase 2400 metros, quando chegamos na base da Pedra da Mina. Eu estava em um grupo de 4 pessoas e logo nas primeiras horas da caminhada uma pessoa do grupo deslocou o ombro ao escalaminhar uma pedra. Ali sentimos que a caminhada não ia ser fácil. Era escalaminhada de rocha uma atrás da outra. Em algumas vezes tivemos que varar mato pela encosta porque não dava para seguir pelo leito. O grande perigo ali era alguém sofrer uma fratura e um resgate era muito complicado, por isso a caminhada era lenta. E os pontos onde montamos as barracas eram sempre em lugares improvisados. Além dessa caminhada ter sido muito difícil, tivemos também uma certa dificuldade para conseguir a autorização do proprietário da Fazenda, onde se inicia a trilha.
Das mais belas, com certeza é a volta completa de Ilha Grande que eu fiz com minha esposa em Janeiro de 2008. Eu que adoro praia estava no paraíso; era cada uma diferente da outra. A trilha não tinha dificuldade nenhuma e se tivéssemos mais tempo disponível até ficaríamos em algumas das praias por mais dias. Encontramos moradores que sempre procuravam nos ajudar e conseguimos completar toda a volta em uns 10 dias sem ter nenhum problema.
E uma das que mais me impressionou foi o Caminho da Fé. Foi uma experiência única encontrar pessoas que são muito hospitaleiras e bondosas. Tanto nas cidades que eu me hospedava quanto ao longo da caminhada as pessoas me cumprimentavam e sempre desejando uma boa caminhada. Perdi as contas de quantas vezes fui convidado para tomar um café na casa de algum morador, me chamando para visitar a família dele ou quando me despedia deles sempre ouvia “Vá com Deus” ou “Que Nossa Senhora te acompanhe”. Isso que é legal em uma caminhada: conhecer pessoas amáveis e gentis. Nessas horas que a gente pensa que a bondade existe nas pessoas. Para quem mora nas grandes cidades onde a violência e egoísmo impera, parece que é um choque que você toma. Com certeza eu volto algum dia para fazer esse Caminho novamente, mas de bike.

MB – No Brasil, quais são as trilhas e travessias que você ainda não fez e pretende fazer? E fora do país? 
Existem algumas travessias que ainda pretendo fazer na região sudeste, mas somente em MG. Na Serra do Espinhaço tem algumas lindas, como a Lapinha-Tabuleiro. Tem a Estrada Real, a Itutinga-Carrancas, o Parque do Caraça, as várias travessias no PN da Serra do Cipó; no nordeste tem a Chapada Diamantina que ainda não conheço; tem a travessia por todo o litoral sul da Bahia. No Maranhão os Lençois Maranhenses; na região sul tem os cânions do PN Aparados da Serra, Serra Geral e a Serra do Mar do PR. Caminhadas fora do país nunca me atraíram. Talvez o Monte Roraima ou a Trilha Salkantay no Peru e o Caminho de Santiago de Compostela. Tem muita coisa aqui no Brasil que ainda não conheço, por isso quando zerar a minha lista aqui no país aí quem sabe é hora de conhecer outros povos.

Augusto percorrendo o Caminho da Fé no 10º dia de caminhada no trecho Consolação x Paraisópolis - Foto: Arquivo Pessoal

Augusto percorrendo o Caminho da Fé no 10º dia de caminhada no trecho Consolação x Paraisópolis – Foto: Arquivo Pessoal

MB – Você também fez o Caminho da Fé a pé, o que te motivou a fazer essa travessia? Quais foram suas impressões? Quais são suas dicas pra quem pretende fazer esse trajeto?
O caminho da Fé para mim sempre foi um desafio que eu impus a mim mesmo, já que caminhar por quase 430 Kms não é uma tarefa fácil. Eu tinha planejado em fazer em uns 16 ou 17 dias, mas acabei fazendo em 15 dias. Sempre gostei de fazer longas caminhadas; já fiz algumas que levaram 1 semana ou mais só caminhando. Essa caminhada não teve um caráter religioso, mas em alguns trechos creio que eu tive a ajuda de uma pessoa onipresente sim. Por cerca de 10 dias eu caminhei sozinho. Só nos últimos 5 dias é que eu tive a companhia da minha esposa que seguiu comigo até a Basílica de Aparecida. Esses 10 dias sozinho, apesar de serem muito cansativos foi bom para analisar como era a minha vida. Ao longo dos trechos de caminhada eu me via divagando. É uma experiência e tanto. A cada dia eu tinha um visual diferente, mas o ponto alto dessa caminhada são as pessoas que você encontra. Acho que todo mundo que gosta de trekking deve completar esse Caminho e não precisa ser católico não.
Sobre as dicas: o caminho é bem sinalizado, quanto a isso pode ficar tranquilo. Leve o mínimo de peso possível; em algumas pousadas se permite lavar as roupas, por isso é desnecessário levar muita coisa. A caminhada sempre se inicia pela manhã e no final do dia se chega na outra cidade, onde se vai pernoitar, então a alimentação também é um item muito importante. Alimentos leves e um café da manhã bem reforçado. Se prepare com bastante antecedência fazendo pequenas caminhadas até chegar um limite de uns 30 a 40 Km diários (a maior parte dos trechos estão com essa quilometragem). E o mais importante, respeite os limites de seu corpo; se estiver se preparando e perceber que não consegue se adaptar ao ritmo, então é melhor fazer o Caminho da Fé por partes: as vezes só nos fins de semana, já que esse caminho é uma sucessão de subidas e descidas de serras.

Augusto no 11º dia da Volta completa de Ilha Grande/RJ - Foto: Arquivo Pessoal

Augusto no 11º dia da Volta completa de Ilha Grande/RJ – Foto: Arquivo Pessoal

MB – Nestes mais de 20 anos de trilhas e travessias pelo Brasil, obviamente você deve ter passado por diversos perrengues, nos conte os mais memoráveis. 
Já peguei vários perrengues. A maioria sempre foi por causa das chuvas. Uma vez eu estava saindo do topo da Pedra da Mina pela manhã e uma chuva com neblina espessa me pegou na descida para o Vale do Ruah. Não enxergava quase nada à minha frente e por isso me perdi. Tive que parar e montar a barraca no meio da chuva e em local improvisado para somente no dia seguinte continuar a caminhada. Teve um outro que foi por falta de planejamento mesmo; estava com um colega fazendo a travessia Itaguaré-Marins e demoramos muito para iniciar a caminhada no Itaguaré e com isso anoiteceu e a gente ainda não tinha chegado na base do Pico do Marins e para piorar estávamos sem agua, por isso acampar na trilha estava fora de questão. Usávamos a lanterna, mas a bateria foi acabando rápido porque tinhamos usado bastante na noite anterior. Foi apavorante descer o Pico do Marinzinho somente com a ajuda de um pessoal que estava acampado na base do Marins, junto ao riacho. Mas o perrengue que ficou na minha memória e que me fez voltar ao mesmo local no ano seguinte foi a caminhada à Pedra do Frade, em Angra dos Reis. Eu estava com minha esposa e mais dois colegas e tínhamos iniciado a caminhada por Bananal/SP. Quase chegando na base da Pedra, começou a cair uma garoa no meio da mata e por isso decidimos montar as barracas na base da Pedra. Durante a noite já não chovia mais e já contávamos em pegar o nascer do Sol no topo, mas no meio da madrugada começou a chover e ela veio bem mais forte que no dia anterior. E o pior é que nós tínhamos montado todas as barracas em um local fechado, rodeado por pedras e não demorou muito aquilo virou uma piscina com agua até a altura dos joelhos. Não deu nem tempo de desmontar as barracas que ficaram alagadas. Como era um Domingo, no dia seguinte alguns tinham que trabalhar, então nem dava para esperar mais algum dia o tempo melhorar. Tivemos que cancelar a subida até o topo da Pedra. Foi muito frustrante, você acampar na base da Pedra e não conseguir chegar ao topo dela, que não era um trecho tão difícil assim, mas com chuva era perigoso. E para piorar mais ainda, no retorno descendo a serra do mar em direção a Angra dos Reis, um dos nossos colegas se perdeu da gente – ele terminou a trilha no dia seguinte, sozinho. Foi uma sucessão de erros um atrás do outro, mas no ano seguinte voltei lá novamente com minha esposa e outro colega e conseguimos chegar no topo com êxito.

Augusto, Márcia (esposa) e Jorge Soto admirando a vista em Pedra da Macela - Cunha/SP

Augusto, Márcia (esposa) e Jorge Soto admirando a vista em Pedra da Macela – Cunha/SP

MB –  Você há pouco tempo embarcou em uma nova aventura, a de ser pai. Como isso impactou na sua vida viajante? Você já fez trilhas/viagens com sua filha? Pretende fazer? Qual é a dica que você pode dar para casais com filhos que queiram começar no mundo das trilhas? 
A paternidade muda as pessoas em definitivo, sabia. Eu sempre fui uma pessoa cabeça dura, teimosa e que mesmo ouvindo conselhos para não fazer essa ou outra trilha, eu ia lá e fazia, sem me importar com as consequências. A partir do momento em que você tem um filho (a) para educar e acompanhar seu crescimento, você se torna uma pessoa mais comedida, precavida, pensa 2x antes de fazer aquela trilha difícil. Você tem de saber que ao voltar da caminhada vai ter alguém te esperando, além da sua esposa. Então o grande impacto que eu tive na minha vida foi o de escolher melhor as trilhas para caminhada. Já fiz algumas pequenas caminhadas com minha filha e o meu objetivo é que ela já curta isso e com o tempo siga os meus passos. Aqui em São Paulo, já fui para todos os Núcleos do Parque Estadual da Cantareira. As trilhas são bem fáceis e sinalizadas e você ainda passa por cachoeiras e belas nascentes. Para levar os pequenos recomendo o Núcleo Engordador e o Cabuçú. Saindo de SP já levei minha filha para Visconde de Mauá, parte baixa do PN do Itatiaia, Aiuruoca, algumas trilhas e cachoeiras de Paraty e o lugar que eu mais recomendo: Parque Estadual do Ibitipoca em MG. É um parque com uma infraestrutura sem igual e com trilhas perfeitas para crianças, no Circuito das Águas. O que eu ainda não fiz e está nos meus planos é acampar com minha filha em algum parque nacional ou no litoral. Por enquanto as viagens que fazemos juntos é sempre para ficar em pousadas, mas conforme minha filha for crescendo quero levá-la para todas as trilhas que eu já fiz. A dica que eu dou para os pais é que iniciem as caminhadas com seus pequenos aos poucos. Não tem de ser algo forçado, pulando etapas. A criança tem de gostar do que está fazendo. Novos ambientes para elas têm de ser algo prazeroso. Comece fazendo um piquenique em algum parque e depois leve ela para caminhar em trilhas curtas e tranquilas.

MB – Das travessias que temos hoje, as mais conhecidas pelos montanhistas e trilheiros, muitas já eram caminhos de bandeirantes e índios e outras foram criadas através de planos de manejo e projetos turísticos. Algumas talvez foram realmente desbravadas por viajantes e acabaram se tornando conhecidas. Pelo tamanho do Brasil, você não acha que ainda temos poucas opções de travessias? Não é papel dos viajantes também, mesmo sabendo dos entraves ambientais, desbravar um pouco mais e tentar criar outras opções. Se sim, como fazer? 
Muitos podem não concordar comigo, mas acho que a maioria dos trilheiros e montanhistas de hoje em dia querem tudo de mão beijada. Ninguém quer se atrever a ir atrás daquela trilha escondida ou que tá fechada pelo mato. Acho que a popularização dos aparelhos GPS foi um dos responsáveis por isso. E tem muito daquela atitude egoísta de certos trilheiros, que ao desbravar uma certa trilha não divulga a ninguém. E colocam os mais diversos motivos: alegam que outras pessoas podem provocar alterações na trilha, dizem que estão respeitando o meio ambiente. Na Serra da Mantiqueira existem inúmeras trilhas que a muitos anos atrás eu tinha feito e atualmente estão tomadas pelo mato. Muitas vezes foram os fazendeiros que proibiram o acesso; exemplos que posso citar é a trilha da Fazenda Hare Krishna em Pindamonhangaba (que sobe da Fazenda até o Pico Itapeva em Campos do Jordão) fechada por um Fazendeiro, a travessia do Pico do Carrasco que tá tomada pelo mato. No litoral existem outras: a Trilha do Telégrafo e a Trilha do Corisco – uma se fechou completamente e a outra está se fechando, a Picada do Lacerda que sobe até o Pico do Corcovado em Ubatuba pelo lado leste; trilha do Pico do Papagaio, trilha do Estevão, trilha do Praia do Poço que foram tomadas pelo mato em Ilhabela. Outras foram pelo descaso de órgãos públicos que deveriam zelar por isso; exemplo disso é a Trilha Reconter no Parque Nacional do Itatiaia (que liga a parte baixa do PN à Visconde de Mauá), que está tomada pelo mato e provavelmente só ficará na memória de quem fez ela na década de 70 e 80. Por isso quem fez trilha a décadas atrás tinha muito mais opções de caminhadas. Quanto a desbravar uma trilha e depois divulgar para a comunidade montanhista, são pouquíssimos os que fazem isso atualmente. Um cara que eu admiro demais é o Sérgio Beck, mas parece que atualmente ele “se aposentou” das caminhadas. Esse ia lá e metia as caras na trilha e depois divulgava na sua revista. Coisa que não era bem vista por alguns diretores de Parques Nacionais e Estaduais; tanto é que sofreu um processo por parte do IBAMA por causa disso. Então é muito complicado desbravar uma trilha, sinalizando ela e depois divulgá-la. Vai que depois de alguns anos um oficial de justiça bate na porta da sua casa dizendo que você é réu em algum processo por crime ambiental ou invasão de propriedade particular. Eu não recomendo alguns viajantes fazerem isso.

MB – Quais sãos os problemas relacionados com a postura ambiental inadequada por parte de trilheiros, que você tenha notado nas trilhas e travessias que fez?
Mudou muito e infelizmente para pior. Quando fazia caminhadas na década de 80 eu até tinha dificuldade de encontrar parceiros. Hoje em dia o trekking está na moda, já que está relacionado ao meio ambiente. Você encontra as mais diversas pessoas fazendo trilhas e em algumas vezes sem respeitar o lugar. Muitos levam o facão somente para abrir clareiras no meio da trilha para montar as barracas. Outros criam verdadeiros banheiros públicos junto da trilha – um exemplo disso é a Travessia da Serra dos Órgaos; muita gente deve se lembrar de que no Vale das Antas as pessoas tinham de caminhar olhando para o chão; além do riacho poluído pelo esgoto a céu aberto. Já presenciei também em trilhas certas pessoas fazendo ela de bike. Quando vemos essas atitudes, a gente vê razão em certos fazendeiros proibirem o acesso a algumas trilhas.

MB – Qual é sua opinião sobre grupos grandes, com 20 ou 30 pessoas em trilhas e travessias? 
Eu sou totalmente contra grupos muitos grandes numa trilha. Fica até difícil controlar os mais empolgados e esses podem atrapalhar a caminhada. É muito complicado encontrar uma coesão em grupos muito grandes e que todos respeitem o lugar onde estão caminhando. Em inúmeras trilhas e travessias os pontos de acampamento são sempre pequenos e tem de ficar assim mesmo. Para que abrir uma enorme clareira nomeio da trilha somente para que mais pessoas possam ter um pequeno conforto? Até em agencias de ecoturismo você não encontra grupos com essa quantidade de pessoas fazendo trilhas.

MB –  Quais são suas dicas pra quem quer começar no mundo do montanhismo e das trilhas, e quais equipamentos são realmente indispensáveis?
A primeira coisa mais importante é a consciência ecológica. Você está indo para a trilha para se adaptar aquele meio ambiente. Não é o aquele meio ambiente que tem se adaptar a você. Naquele meio nós somos estranhos e não devemos deixar nenhuma marca para identificar que passamos por ali. Já vi cada coisa em trilhas: gente montando toldos só para se se proteger do Sol em camping no meio da trilha, pessoas desmatando para pegar a vegetação e deixar o solo mais plano somente para deixar a barraca mais confortável, pessoas matando cobras que se encontra no meio da trilha (ali é a casa dela – nós é que somos os invasores), ao fazer as necessidades fisiológicas não respeitam a distancia dos rios e nascentes e abandonam o papel higiênico como se alguém viesse para recolher depois – nessas horas acho que não custa nada para a pessoa fazer um pequeno buraco no solo e depois enterrar. São essas pequenas atitudes que não condizem com meio ambiente.
Quanto aos materiais indispensáveis eu sou a favor que não se economize. É ele que pode te deixar na mão no meio de uma caminhada e botar tudo a perder o planejamento que você tinha feito para fazer aquela trilha ou travessia. Felizmente temos bons fabricantes e os preços não são tão altos assim, mas evite comprar o mais barato. São 3 os equipamentos básicos que eu considero os mais importantes em uma caminhada:
– uma bota amaciada e de qualidade e nunca uma estalando de nova para fazer uma trilha, senão você volta da caminhada com inúmeras bolhas.
– uma mochila que se adeque ao seu corpo e que seja do tamanho ideal para a trilha. Por exemplo, não compre uma mochila de uns 40 litros para uma travessia de uns 4 dias.
– uma barraca de boa qualidade que na primeira grande chuva não te deixe ensopado dentro dela. Atente a um item muito importante quando for adquirir uma – a coluna dágua em mm. Quanto maior, mais ela resiste as chuvas. O ideal é sempre adquirir uma com no mínimo 1000 mm de coluna dágua.

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22 Comments

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  1. Henrique Marques

    29 de abril de 2016 at 9:21

    Meu, amigo, seus relatos são um tesouro, sempre pesquiso eles e uso como referência nas minha andanças, sou teu fã e um dia queria ter a honra de te conhecer pessoalmente. Um abraço…

  2. Filipé

    14 de abril de 2016 at 18:46

    Parabéns amigo Geógrafo,

    temos que aproveitar as maravilhas que o mundo nos proporciona, realmente não sabemos o dia de amanhã!

    Abração!

  3. Marcos Rabello Paz

    26 de outubro de 2015 at 22:25

    Meu camarada, conheço suas andanças pela internet, pelos blogs e relatos. Sou seu fã!

  4. anderson

    11 de janeiro de 2014 at 18:42

    parabéns
    poucos fazem

  5. Getulio R. Vogetta

    7 de novembro de 2013 at 17:29

    Olá Augusto!
    Bacana a entrevista. Certamente tu és atualmente um dos grandes caminhantes e montanhistas brasileiros, sem querer puxar saco, especialmente pela humildade e predisposição em auxiliar outros expedicionários e compartilhar informações.
    Grande abraço!

  6. Getulio R. Vogetta

    7 de novembro de 2013 at 14:56

    Grande Augusto!
    Bacana a entrevista. Neste país, em termos de trekking temos poucos mestres. Você sem dúvida é um deles! Pode não parecer, mas você vem influenciando e estimulando uma geração inteira de novos caminhantes.
    Forte abraço!

  7. Augusto

    31 de julho de 2013 at 14:04

    Ola galera.
    Obrigado pelos elogios, mas sou apenas um reles caminhante.
    Esse é um dos motivos que me fazem continuar escrevendo os relatos e mantê-los atualizados.
    Hoje minhas férias estão terminando e foram bem produtivas.
    Daqui a alguns dias estou postando novos relatos: um das Serras Gaúchas e outro da Serra do Cipó/MG, da famosa Travessia Lapinha-Tabuleiro.
    É a minha primeira travessia por campos rupestres e pelo cerrado e voltei de lá adorando tudo. Que visual.
    Quanto ao seu comentário João, você está certíssimo, a Cachoeira do Tabuleiro é linda.
    Pode ter certeza que em breve volto a essa região.

    Abcs a todos e valeu pelo incentivo.

  8. silvino

    15 de julho de 2013 at 17:37

    grande augusto te admiro vendo estas fotos hoje eu com quarenta e seis anos sempre foi um sonho meu e da minha esposa compramos todos os equipamentos mas como ela faleceu o único lugar que conhecemos com os filhos foi parque ecológico da Jureia que ficamos 15 dias obrigado cada aventura sua é como se eu estive-se nos lugares que sempre sonhei obrigado

  9. joao mario junior

    1 de julho de 2013 at 21:53

    concordo com vc , Ibitipoca é muito bom e quando puder vá para a serra do cipó e conheça a incrível cachoeira do tabuleiro( um dos lugares mais bonitos que já fui se não for o mais) e a trilha do travessão. . No caminho da fé , otrecho mais bonito é entre Paraisópolis e o bairro do quilombo em Brazopolis, talvez vc concorde comigo, uma bela trilha também é a trilha do ouro na serra da bocaína , não sei se vc já fez , vale a pena conferir, valeu !

  10. LiCo

    26 de junho de 2013 at 20:59

    Parabéns pela entrevista. Sempre fico babando nos relatos do Augusto!

  11. Samuel Oscar

    25 de junho de 2013 at 22:01

    Graças aos relatos do Augusto tive e estou tendo oportunidade de conhecer muitos lugares sensacionais pois, detalhes e sugestões são apenas algumas das qualidades do Montanhista Augusto. .. abs amigo

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